Ontem saí de casa mais cedo porque tinha que pagar uma conta de água em uma loja de loterias. Quando cheguei próximo ao centro da cidade me deparei com uma situação. Foi angustiante e avassaladora. Vi, como muitas vezes vi e presenciei, um acidente de carro. Só que desta vez tudo foi mais estranho. Dentro do carro tinha o corpo de alguém ainda jovem, pelo que aparentava, jaz morto, num estado deplorável de sangue e dilaceração. Simplesmente chocante. Logo chega um senhor de meia idade, cabelo levemente grisalho, que rapidamente abre o carro acidentado e começa a gritar desesperado. Ele retirou parte do corpo morto para fora do veículo e o abraçou com força. Enlouquecido, não prestava atenção em mais nada do que estava por perto. Beijava o rosto ensanguentado e morto do rapaz e, completamente alheio ao público que estava na volta, gritava: "Meu filho, meu filho... Onde tu estás? O que tu fez meu filho? Diz pra mim que tu está aqui, que isso é só um sonho... Diz pra mim... Meu filho, meu filho...". E beijava o rosto repetidas vezes, até que um policial dele se aproximou e, aos trancos, lhe tirou de cima do cadáver. Em seguida chega uma ambulância e logo um carro fúnebre. Quando colocaram o corpo dentro do caixão e quando ouvi o barulho da porta daquele carro de mortos se fechando, me dei por si.
Pasmo, comecei a pensar em vocês, pais, irmãos, filhos e sobrinhos, e, assim, resolvi voltar para casa para escrever esta carta.
É o que segue:
Queria pedir desculpas por todas as vezes que eu saí de um encontro nosso sem dar tchau ou estender a mão. Vi, hoje, com aquela cena do acidente, que a partida pode ser ou se dar a qualquer momento em nossa vida, e senti que seria muito triste e pesaroso se eu partisse e não tivesse me despedido de vocês com alegria e com cordialidade, porque vocês são as coisas mais importantes que tenho.
Também pensei o contrário. Pensei que seria possível que, ao voltar para encontrá-los em casa, já não mais estivessem por aqui, por este mundo - o que seria terrível de igual forma, ainda mais por saber da minha deselegância e da minha rispidez por não tê-los abraçado com ternura antes de partirem.
Fiquei muito preocupado quando vi que qualquer um de nós podia estar ali naquele lugar. Não pela morte, que é esperada, mas porque lembrei que ainda não tinha dito para vocês o quanto os amo e que Deus foi maravilhoso demais tendo os colocado em meu caminho. Afora tantas coisas que eu queria dizer, peço que relevem o monte de coisas sem sentido que eu falei em algum momento de ira ou raiva, pois foram coisas da minha pequenez de outrora. Hoje, depois do que vi, não teria coragem de pronunciá-las novamente.
Sabe, não sei se aquela cena deu sentido à minha vida ou se me fez crescer de alguma maneira, mas, incrivelmente, aquilo tudo me fez ficar mais humano. Comecei a pensar que o tempo que vamos ficar juntos aqui na Terra é tão pequeno diante da vastidão de tempo que virá a nos separar com a partida... Sabe-se lá quanto tempo levaremos para nos encontrarmos novamente... Daí me vem à cabeça todo o valor que vocês têm pra mim, e pior que isso, valor esse que talvez eu não tenha apreciado por egoísmo ou leviandade. Ah, meu Deus... Podia ser um de nós ali, e eu fiquei apavorado por saber disso e, ao mesmo tempo, por saber que eu ainda não havia falado a vocês, com todas as letras, que os amo, amo muito.
Naquele momento senti necessidade de correr até vocês para poder recuperar o tempo perdido. Senti vontade de dizer que reconheço todo o esforço que fizeram por mim e que sempre serei grato por isso, porque sei que fizeram sempre o máximo que puderam fazer.
Queria, com essas palavras, 'insuficientes', deixar registrado que me arrependo enormemente de não ter lhes dado a atenção necessária quando, ao invés disso, lhes dei as costas com desdém e arrogância. Observo hoje que só por causa do despeito e da intransigência não dei carinho, não dei afago, não tive compaixão quando de alguma maneira os repreendi com um jeito rude.
Perdoem-me, pois, às vezes, parece que não é possível compreender que um simples colo de vocês ou um simples abraço meu poderia ter resolvido todo o dilema das mais variadas angústias que sobrevinham.
Que pesar perceber que conheci tantos lugares e pessoas e mal tive tempo de curtir vocês, conhecer melhor vocês, saber de suas dores, dissabores, amores e tudo o mais. Que droga... Só depois disso é que me dei conta de que o tempo está passando muito rápido e que eu poderia ter ficado mais tempo com vocês.
Quantas vezes viajei só?! Podia ter levado ao menos um de vocês comigo, era só convidar, eu sei. Quanta coisa podíamos ter dividido, quanta coisa...
Quanto tempo ainda teremos para resgatar todo esse tempo perdido com futilidades? Não sei.
De qualquer forma, não pensem nunca em ficarem constrangidos ou em quererem me pedir desculpas por alguma palavra pesada ou desconfortante que tenham me dito. Fiquem tranquilos porque nada, absolutamente nada do que tenham falado e que possa ter me ofendido é tão grande a ponto de superar a admiração e o amor que sinto por vocês.
A partir de agora, mais do que nunca, não quero mais perder tempo. Temos muito o que fazer. Nunca mais quero viver, nem em sonho, essa sensação desgraçada de termos que nos afastar uns dos outros com pendências deste tipo. Quero beijá-los e abraçá-los enquanto estamos por aqui.
Não terei nenhum tipo de resistência. Até porque agora tenho consciência de que a vida aqui é realmente um sopro e que picuinhas não têm sentido quando o assunto é dar valor aos que amamos.
Queria, com isso, também dizer a vocês que não me importo que a morte venha nos separar por aqui e que eu não vou ficar atormentado quando ela acontecer, mas quero, a partir de agora, ficar feliz de verdade por vocês existirem do meu lado.
É mais ou menos isso: não quero mais dar valor ao derradeiro por ser fatal, quero, de fato, é apreciar vocês da maneira mais nobre possível.
Saibam que nunca mais vou dar ouvidos para os palavrões ou besteiras que me falarem, porque eu não estarei mais prestando atenção nisso. Eu vou estar olhando para vocês com os olhos da alma e ouvindo os seus corações, não suas bocas. Então, bobagens faladas não terão significado para mim.
Entre tantos pensamentos que me vieram à cabeça, um deles foi bastante opressivo. Percebi que já se passaram anos e não lembro qual foi a última vez que ficamos juntos uma manhã inteira. Não sei, não lembro. Simplesmente não lembro... Até porque, se aconteceu, faz muito tempo. Que horrível isso...
Vejo hoje que passamos muitas horas por perto, mas poucas juntos. Muitas vezes na mesma casa, mas distantes... Que ridículo! Quanto tempo deixei de apreciá-los, de passar a mão em seus rostos, de convidá-los para pescar, para caminhar, para curti-los.
Vocês são tão especiais para mim, mas é como se eu não tivesse pensado nisso antes. Parece que depois deste acidente que presenciei minha cabeça não para de pensar nas coisas todas que podíamos ter feito juntos e ainda não fizemos.
Por exemplo: eu hoje, mais do que nunca, quero saber a visão que cada um de vocês têm sobre o mundo, sobre Deus, sobre a natureza, sobre as cidades, sobre política, religião, guerra, paz, planetas e universo.
Quero, também, pedir a vocês que tratem uns aos outros com mais carinho e menos vaidade, pois gostaria que em minha ausência cultivassem a vontade de estarem sempre unidos, conscientes de que em instantes ou segundos tudo poderá se transformar, conscientes de que um ato de ternura poderá ser aquele remédio que tanto precisarás no momento de te abraçares ao esquife na despedida cruel.
Por fim, quero lhes dizer que, quando me dei por conta, pai e mãe, vocês já tinham seus traços de velhice; que vocês, meu irmão e minha irmã, já não eram mais adolescentes; que vocês, meu filho e meus sobrinhos, já não eram mais criancinhas, e eu, eu não vi isso tudo acontecer. Então agora, mesmo que venha a lhes encher o saco, quero lhes falar todo dia, chegar para comer fora de hora, beliscá-los, fazer cócegas em vocês, falar bobagens com os meninos e fazê-los ensaiar sobre cantadas e flertes. Quero entrar nas suas casas com os pés sujos, abrir as tampas das panelas no fogão, mexericar na geladeira, ser assim, intenso, de forma que não venhamos a ter qualquer tipo de drama de consciência na derradeira e furtiva hora. De forma que não venhamos nem a nos darmos conta dos dias que até agora perdemos e que, infelizmente, já foram muitos.
De quem os AMA,
MARLON
Marlon Santos